Doente do Coração

Sérgio Sampaio era esse letrista sarcástico e, também, um desconcertante melodista e um grande violonista.

Não consigo me curar da reedição remasterizada em CD do álbum “Tem que acontecer”, de Sérgio Sampaio. Fui sugado pro seu universo paralelo, no qual dor nunca foi apenas uma rima — mas também uma prima-irmã — de humor. Colado no cantor e compositor capixaba antes ainda da sua morte por pancreatite, aos 47 anos, em 1994, o rótulo “maldito” tende a obscurecer o modo como ele zombava da própria danação.

Escuta-se, no disco de 1976, o blues “Que loucura”, avô das letras do Harmonia Enlouquece, grupo formado no Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro, na Saúde. “Fui internado ontem”, canta Sampaio. “Na cabine 103/ Do Hospital do Engenho de Dentro/ Só comigo tinham dez/ Eu tô doente do peito/ Eu tô doente do coração/ A minha cama já virou leito/ Disseram que eu perdi a razão/ Eu tô maluco da ideia/ Guiando carro na contramão/ Saí do palco e fui pra plateia/ Saí da sala e fui pro porão.”

Sampaio era esse letrista sarcástico e, também, um desconcertante melodista e um grande violonista. Nasceu em 1947, em Cachoeiro de Itapemirim. Era filho de maestro. Um tio fizera parte do Trio de Ouro, que acompanhava Herivelto Martins. Um primo compôs “Meu pequeno Cachoeiro”, celebrizada pelo conterrâneo Roberto Carlos.

Como Roberto, seis anos mais velho, Sampaio veio tentar a sorte no Rio. Diferentemente dele, não se deu bem. (Mais tarde, o homenagearia/sacanearia em “Meu pobre blues”.) Contudo, em 1971, na hora de gravar o LP-manifesto “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10”, um produtor da antiga CBS, Raul Seixas, convocou Sampaio, Míriam Batucada e Edy Star. O disco saiu, mas Raul foi demitido.

No ano seguinte, Sampaio participou do 7º Festival Internacional da Canção com uma balada tristonha com refrão de marcha-rancho, “Eu quero é botar meu bloco na rua”. Como em “Que loucura”, a letra fazia ironias autobiográficas, apesar de não se esgotar nelas: “Há quem diga que eu dormi de touca/ Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga/ Que eu caí do galho e que não vi saída…” O compacto vendeu 500 mil cópias.

Então, você pensa, um LP chamado “Eu quero é botar meu bloco na rua” e produzido por Raul deve ter arrebentado em março de 1973, certo? Errado. Nem o fato de a faixa-título ter sido cantada no carnaval nem a qualidade do samba “Cala a boca, Zebedeu” (composto por Raul Gonçalves Sampaio, o pai de Sérgio) ou do blues “Não tenha medo, não!” salvaram o disco do fracasso comercial.

O bode foi tamanho que o LP “Tem que acontecer”, produzido por Roberto Moura, só apareceria após três anos. Dessa vez, a faixa-título era uma lição de fatalismo (“Se ninguém tem culpa/ Não se tem condenação/ Se o que ficou do grande amor é solidão/ Se um vai perder/ Outro vai ganhar/ É assim que eu vejo a vida/ E ninguém vai mudar”) arrematada pela matadora auto-ironia de Sampaio (“Mas não posso fazer nada/ Eu sou um compositor/ Popular”). O lindo arranjo de João de Aquino tinha, além de uma pequena orquestra de cordas, o flautista Altamiro Carrilho, falecido este mês.

Pela idade, Sampaio não tinha como ficar alheio ao rock e ao blues (resgatado por Beatles e Stones), mas transava de tudo. Tinha a mão particularmente boa para sambas. Os seus já nasciam como se fossem regravações de clássicos dos anos 1940 ou 50. “Tem que acontecer” abria com um, “Até outro dia”, e fechava com outro, “Velho bandido”, entre outros. A reedição da Warner/Discobertas traz três faixas-bônus, inclusive “História de boêmio”, de subtítulo “Um abraço em Nelson Gonçalves”.

Sampaio lançaria apenas mais um LP, o independente “Sinceramente”, em 1982, apoiado por amigos como Renato Piau, Sérgio Natureza e Luiz Melodia, com quem fez um dueto em “Doce melodia”. A faixa seguinte, a 11ª e última, chamava-se “Faixa seis”. Nela, mais uma vez, Sampaio embaralhava carreira, amor e humor negro: “Você hoje para mim/ (…) é a faixa seis/ do lado B/ do meu último LP./ Aquela que o programador de rádio nunca toca/ Aquela que o divulgador do disco evita (…)”.

Referências? Embora não fosse nordestino, algo mourisco no canto de Sampaio o aproxima de Caetano, Fagner e Ednardo — e o torna atraente para fãs como Lenine e Zeca Baleiro. Este construiu-lhe em 2006 um CD póstumo, “Cruel”, a partir de demos, inclusive da assombrosa “Roda morta”. Além, claro, de ter feito a sentida versão para “Tem que acontecer” no álbum-tributo “Balaio do Sampaio”, de 1998. Se necessárias referências roqueiras para localizar Sampaio, digo que ele me põe para pensar tanto no grupo psicodélico Love, dos anos 1960, quanto no padroeiro de todo verso espremido na melodia, Bob Dylan. Aliás, apesar dos arranjos elaborados, seus dois primeiros (e melhores) discos estão mais para a sinceridade descarnada, quase suicida, de “Lóki?”, de Arnaldo Baptista, um maldito que sobreviveu a si próprio.

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