Entrevista de Sérgio Sampaio à revista UMDEGRAU, de Zeca Baleiro

Trechos extraídos de entrevista gravada por Sérgio Sampaio na casa de seus pais, em Cachoeiro de Itapemirim, no segundo semestre de 1989, para a revista cultural Umdegrau. Editada por Joãozinho Ribeiro, Henrique Bóis, Sérgio Castellani, Solange Bayma e Zeca Baleiro, em São Luiz do Maranhão, a revista, que pretendia ter frequência mensal, não passou do primeiro número. Convidado a ser o entrevistado da edição inaugural, Sampaio demorou tanto a responder que a revista teve de ser lançada sem a tão esperada entrevista, que permaneceu inédita por todo esse tempo.

Início

“Comecei em 1971, na CBS. Fui até lá para acompanhar no violão um rapaz, que queria fazer um teste pra cantor. O nome dele é Odibar, parceiro do Paulo Diniz. E quem nos recebeu foi um produtor chamado Raulzito, que era o Raul Seixas. Ele cantou, eu toquei, aí o Raul disse para o Odibar que pra lançar um novo cantor ele precisava de uma música muito forte, muito poderosa, que invadisse as rádios pra poder chamar atenção. E eu, inocentemente, falei: “tenho umas coisas aqui, será que interessa?”. Ele olhou pra mim com aquela cara de enfado, pensando, “ai, meu Deus, mais um compositor”, e disse: “Tá bom, então canta”. Ai eu cantei uma canção e ele arregalou o olho: “É sua?” e eu: “É”. “Tem mais?” – e eu falei: “Tem”. E cantei outra e outra e outra… Na saída, ele nos convidou pra tomar um café, aí ele falou baixinho pra mim: “Volta amanhã”. Quer dizer, aí eu voltei e fiquei. Foi quando tudo começou.”

Influências

“Eu me lembro de menininho assim ouvir muito rádio e rádio tem de tudo. Com 15, 16 anos fui ser locutor de rádio, na única estação que tinha aqui em Cachoeiro, e sendo locutor, convivia com a discoteca da rádio. Então me lembro que, em horário de folga, ia lá pra dentro e ouvia muita coisa. Ouvia muito Sílvio Caldas e gostava bastante da poesia de Orestes Barbosa, como gosto até hoje. Orestes Barbosa pra mim é um dos craques da música brasileira”

“Ouvia muito Orlando Silva, era apaixonado por Orlando. E também venho de uma família que é profundamente musical. Sou primo do compositor Raul Sampaio, que é autor de “Meu pequeno Cachoeiro” e outras inúmeras canções. Tinha muito orgulho de ser primo dele. Ia pra casa da mãe dele e lá tinha eletrola, eu botava os discos, titia servia bolo, eu ficava comendo bolo com café e ouvindo. Aí titia ia dormir e me deixava sozinho na sala e eu ficava ouvindo os discos que quisesse. Eu me lembro que os Beatles foi uma coisa que me bateu muito fundo. Também sempre gostei muito de Roberto, de Erasmo. Quando veio a bossa nova, me lembro que aquela coisa não me batia muito, não. Depois, com a Tropicália, me lembro que gostava de Edu, de Caetano, de Gil, de Chico. Quando fui pro Rio, conheci outras pessoas e elas foram me abrindo mais o campo de conhecimento da música e foi aí que descobri a bossa nova de João Gilberto. Eles me mostraram e tive a oportunidade de ouvir João e ficar apaixonado, como sou até hoje. E Paulinho da Viola, que sempre foi uma pessoa que me fez a cabeça. De influencia é isso aí, quer dizer, nem acho que seja influência, porque, na verdade, eu ouvia de tudo – parada de sucessos, você ouve de tudo. Eu ouvia mesmo, me lembro que deixava o rádio ligado e ia fazer as coisas e ficava sempre ouvindo.”

Música

Eu não sou músico. Músico é Hermeto, é Egberto. Músico eu não sou. Faço meus acordes, pego o violão. Toco no violão como quem toca no corpo de uma mulher sem saber as zonas erógenas. Vai tocando por instinto… Assim é a minha relação com o instrumento. Sou um poeta, mas a poesia se manifesta em mim através da letra de música. Não seria um poeta como Vinícius, como Drummond, como Fernando Pessoa, por exemplo. Talvez não fosse capaz de sentar e escrever um livro de poesia e, mesmo que escrevesse, não iria sair lá grande coisa. Penso que a poesia se manifesta em mim através da letra de música, porque música é uma coisa muito forte em mim e, geralmente, quando faço as músicas, sai tudo junto, letra e música. E é uma coisa bastante agradável, tesuda, extasiante mesmo de fazer. Eu me coloco a nu nas coisas que faço. Muito verdadeiramente, muito.”

Inspiração

“Costumo dizer que o luar, pra mim, não teria importância se não tivesse o olhar brilhante de uma pessoa perto de mim admirando esse mesmo luar. Pra mim, não teria razão alguma de existir. Ou mesmo o sol nascente, ou o sol poente, não teria razão alguma de existir se não tivesse, por exemplo, aquele casal de namorados admirando aquele espetáculo deslumbrante. Acho muito mais bonito o êxtase no semblante de um casal admirando esse espetáculo do que propriamente o espetáculo. Então, a fonte de inspiração são as relações humanas. O ser humano, pra mim, é a coisa mais bonita. As intrigas, as cafajestadas, as manifestações de hombridade, de generosidade, carinho, tudo o que vem do ser humano, do pior ao melhor, do mais gostoso ai mais tétrico… Mas tudo o que vem do ser humano, pra mim, é bonito. É o que eu vejo como fonte mesmo, como força.”

Bloco na rua

“Essa historia de bloco na rua é engraçada, porque o que você estava querendo há 10 anos, de repente, já não é mais o que você está querendo agora. E o tempo é um fato danado, o tempo é fogo na jaca mesmo! Você tem suas pretensões aos 20, outras pretensões aos 30 e assim vai alterando suas pretensões. Eu acredito que o bloco na rua seja essa coisa de soltar os bichos. As pessoas me perguntam: “E ai, querendo botar o bloco na rua?”, e eu digo: “Não, já botei, agora falta vocês botarem. Mas é uma brincadeira, porque, na verdade, a gente está sempre querendo colocar o bloco na rua. “Bloco na Rua”, inclusive, não acho uma música bem feita, a importância foi que ela surgiu numa época em que as pessoas estavam muito amordaçadas. E não era uma coisa consciente em mim. Não era que eu tivesse assim: “Agora vou fazer isso aqui porque eu…” Não, nada disso. Fiz a canção num momento de angústia bastante grande. Eu me lembro que era muito sozinho, fiz a canção e sentia que ela tinha determinado poder em mim mesmo, eu sozinho comigo cantando, sentia que ela tinha um poder. Depois mostrei pra Raul e ele mesmo disse: “Pomba, é isso aí, dá pé, esse negócio aí é legal e não sei o que”… Mas acredito hoje, passado tanto tempo, que a grande importância dessa canção é ter sido feita e lançada numa época em que as pessoas estavam muito amordaçadas e bastante medrosas de abrirem a boca pra falar qualquer coisa. Eu me lembro de Gonzaguinha dizendo que fazia canções usando determinados artifícios para dizer isso ou aquilo, porque era tudo muito proibido. A autocensura começou a pintar muito nos compositores naquele período.”

Sucesso

“Alguém já disse, certa vez, que o sucesso e o fracasso são dois lados da mesma moeda. O que seria o sucesso? O que seria o fracasso? Não sei, sucesso seria você se dar bem naquilo que você pretende?… Ouço, por exemplo, pessoas falarem que determinado filme quando foi lançado foi um fracasso de bilheteria, mas ai passa um determinado tempo e o filme vira um boom e tal. Isso já ocorreu muitas vezes. Até na música mesmo. Se não me engano, “Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago, quando foi lançada não aconteceu nada. E passado algum tempo, não sei quem foi que descobriu, não sei porque razão, de repente virou “Amélia”, que até hoje é tradicionalíssima. Então penso assim: O importante é fazer, é estar feito, estar registrado. O próprio Fernando Pessoa, em vida, ninguém lia e hoje Fernando Pessoa é o que nós sabemos. Augusto dos Anjos, por exemplo, editou um livro apenas, e Augusto dos Anjos foi, inclusive, um dos poetas que eu mais li quando jovem. Quer dizer, não tenho medo, você tem medo do desconhecido, mas eu já conheço, eu sei do que se trata. O correspondente do sucesso, fundamental, por exemplo, é o dinheiro. Você é uma pessoa que não tem dinheiro e de repente começa a ter um volume de dinheiro. Esse negócio é perigoso, na medida que você pode se julgar autossuficiente, se julgar o rei da cocada preta.”

Marginália

“Na década de 70, existiu, a partir de 69, o que se chamou de contra-cultura. Veio de Woodstock, Hendrix, Janes Joplin, Festival de Altmont… Então surgiu essa historia de marginal. Veja só, o que se poderia entender de marginal seria o artista em qualquer área de atuação que não alcançasse o grande publico, que ficasse correndo pelas margens. Ele era conhecido mais nas margens, era aquela coisa cult, somente para iniciados. Mas, meu Deus do céu, comecei a fazer disco em 71! Em 72, era o maior sucesso do Brasil, como também em 73. Então, o que a grande indústria colocou como proposta marginal, eu não era, pelo menos nessa época. O que pode ter existido, talvez, tenha sido a minha proposta de vida, de não ser aquela pessoa que me deixasse levar, profissionalmente falando, pela estrutura da máquina. Mas isso eu não fazia conscientemente, não era uma coisa assim “não, eu não sou”, não era nada disso. Era apenas uma postura de vida, era particular, meu, de como eu sou na vida. Uma postura de ter o direito de dizer não. Mas essa história de margem, acho que vou sempre correr por ai, até o fim da minha vida. Ate onde eu posso me lembrar, quando vivia em Cachoeiro, nunca participei dos grandes esquemas, nunca fui pessoa de grandes grupos, de grandes rodas… Eu nunca estive dentro, sempre perto. E quanto ao futuro da marginália, penso que, enquanto existir a grande máquina e enquanto existir o artista que gostaria de um pouco mais de liberdade de criação, quer dizer, de não se sujeitar totalmente ao repuxo da grande máquina… Enquanto houver essa sensação de liberdade de criação, vai haver isso, não tenha dúvida. E esses são os maiores criadores, acredito que são os maiores criadores porque são aqueles que têm compromisso apenas com a liberdade de criação.”

Roberto Carlos

“Essa historia de sucessor de Roberto é invenção da imprensa. Eu me lembro que uma vez saiu numa revista chamada Contigo uma foto minha bem grande, uma foto de Roberto menor, e em cima do meu nome, dois pontos e “o sucessor do Rei”; “Roberto Carlos diz: “Sérgio Sampaio é meu sucessor”; uma coisa assim, mas isso é invenção da imprensa. Você vai entrar em papo de Contigo, você dança, né? Papo de Amiga, isso é mesmo pra publicidade de terceira categoria. Nem Roberto disse isso, nem tampouco houve isso de minha parte. Nunca imaginei uma coisa dessas, porque o que o Roberto canta é totalmente diferente do que eu canto. Inclusive acredito que os objetivos de Roberto na canção sejam totalmente diferentes dos meus. E afinidade existe no sentido de que eu gosto muito dele. Isso é fatal. Atualmente não ouço muito, acho um pouquinho chatas algumas canções que tenho ouvido, mas sempre tive os discos todos do Roberto. Até algum tempo atrás, em minha casa no Rio, me lembro que as pessoas chegavam, eu mesmo chegava sozinho, pegava um disco dele e botava. Porque a música, pra mim, não tem muito essa coisa de tempo, não. As pessoas ouvem Mozart e Mozart já é falecido há muito tempo. As pessoas ouvem Orlando Silva que já é falecido há muito tempo. A minha relação com a música é uma relação de muito amor. Não tenho uma relação com a música puramente profissional no sentido de dinheiro, não! Ganho dinheiro com a música porque preciso sobreviver e é minha profissão. Mas a minha relação com a música é mesmo de amor.”

Luiz Melodia

“Conheço o Luiz desde que estávamos começando. A gente é amigos de longa data e as pessoas sempre perguntam: “Ah, vocês nunca fizeram música juntos?”. Nunca, nem pretendemos! Jamais conversamos sobre isso, tamanha a amizade, tamanho é o respeito pela criação um do outro. Sou apaixonado pelas canções de Luiz. Tenho certeza que ele é apaixonado pelas coisas que eu faço. Nós temos mais ou menos a mesma criação, claro que guardadas as proporções… Ele nasceu no morro. Morro, no Rio de Janeiro, tem uma coisa mais a ver com o banditismo, com a marginália no sentido feroz da palavra. Enquanto que eu, aqui numa cidade do interior, convivia com a marginália, mas uma marginália cultural. Uma cidade que tinha uma estação de rádio, que não tinha TV. Penso que nós temos uma vertente bastante poderosa, que nos aproxima bastante, que é Roberto Carlos. Nós dois, desde meninos, sempre gostamos de Roberto. O Luiz gravou agora “Que Loucura”. Certa vez eu estava num bar, encontrei com Luiz, tinha acabado de fazer essa canção e fui mostrar pra ele no botequim, batendo assim o andamento. E desde aquela época, toda vez que ele encontrava comigo, cantava um pedaço da canção. Às vezes, me pedia que eu cantasse inteira pra ver se ele aprendia. Mas sempre essa coisa dele ouvir com o sentido do prazer, nunca com a  intenção de botar em disco. Tanto é que já se passou um tempão desde que eu cantei essa canção pra ele e ele foi colocar no disco só agora. Foi um negócio, inclusive, que me surpreendeu. Cheguei no Rio certa vez, um amigo comum disse: “Você já ouviu a musica que o Luiz gravou?”, e eu disse: “Ué, não estou sabendo de nada”. “Vamos lá no meu carro que eu tenho uma copia do disco”. E nós fomos no carro. Ele botou e foi quando ouvi pela primeira vez. Fiquei feliz, contente, por ser o Luiz, também.”

Que loucura

“Bom, me lembro que certa vez pressenti assim, muito claramente, que eu poderia enlouquecer, no sentido da insanidade, que era uma coisinha de nada, que era zap, rapidinho. Mas também pressenti que tenho um autodomínio muito grande e que, se algum dia eu fosse internado num hospício como o do Engenho de Dentro, seria por artifícios legais, jamais seria por uma coisa real. A sociedade é estanque, ainda não aprendeu a conviver com aquelas pessoas que não se afinam com as sua diretrizes, de ter que estudar, se aperfeiçoar em alguma profissão, de seguir aquele caminho, casar, ter filhos e educá-los, ser um bom pai, uma boa mãe. Ela ainda não se acostumou com o fato de que tem pessoas que não estão nessa. Tem pessoas que estão em outra, talvez até não saibam que outra seja essa, mas não é aquela. Eu não tenho esse medo, não. E se algum dia acontecer – Deus me livre -, mas se algum dia acontecer de eu ser internado por obrigatoriedade judicial, num hospício, uma coisa certa, bastante certa, é que é uma tramóia, é uma armação. E que talvez lá eu possa até perder um pouco a sanidade, mas é algo que tenho certeza que não perderia tudo, não ficaria insano incorrigível. Talvez porque tenha muita consciência do que sou como ser humano, como pessoa. Não tenho esse medo, não. E essa canção do hospício do Engenho de Dentro foi escrita para Torquato Neto. Ele me contou que foi internado uma vez lá e aí os caras trataram ele muito bem, ele conseguiu escrever muito e não sei o que. E de repente ele disse que quando já estava na rua, já em casa, quando sentia dificuldade de escrever, ia pra lá e tinha o quarto dele onde trabalhava. Achei isso muito engraçado e fiz a canção.”

Palco e plateia, sala e porão

“Eu gosto muito de aplaudir, gosto de sentar lá, assistir shows de pessoas que admiro. Ah, gosto muito de aplaudir, assoviar, de gritar e tal. E gosto bastante do palco. O palco é meu lar, minha casa, é onde eu estou em casa. Eu estou legal com uma plateia que goste do que eu estou fazendo, estou realmente feliz. É onde tenho a noção exata de que sou feliz! Quanto ao quarto e porão da canção “Que Loucura”, o Melodia cantou errado. Não é errado, é que ele gosta mais do quarto. Então ele botou quarto. “Sai do quarto e fui pro porão”, mas não é. É “saí da sala e fui pro porão”. O sentido aí é sala como aquela coisa que você está quase exposto. Abriu a porta da frente e você está ali. É a sala de visita, onde tocou a campainha e você abre e já está ali, bem vestido, bem perfumado, barbeado, bem sociável, essa coisa toda. E o porão é aquele momento que você precisa – todas as pessoas precisam disso e algumas até sofrem muito porque não têm esse porão ou não descobrem que precisam desse tal porão – para poder ficar trancadinho lá, quietinho, sozinho, ele e ele, ele com ele, fazendo as grandes reflexões. De ficar com essa linguagem do silêncio. Você fica ali quieto, catatônico – é, a palavra é essa! Ficar com sua catatoniazinha, sua loucura, seu prazerzinho pessoal, você com você. Uma pequena masturbação mental. É essa coisa! Mas o negócio aqui é sala, não é quarto.”

Independência

“Penso que essa coisa de independência da criação é de a gente ser muito a gente, segurar muito a peteca da gente mesmo. Tem que ter esse espírito da liberdade. Luiz com aquele jeito dele, quieto, eu sou muito extrovertido, falo demais, de vez em quando falo até o que não devo. É uma coisa da minha identidade, a maneira de me manter como artista, independente das situações que estão ocorrendo no Brasil. E acho que a gente representa essa liberdade de criação. Você vê que a música que o Luiz faz é uma música totalmente pessoal, assim como a minha. Até um amigo meu, poeta, disse: “Quem ouve uma canção sua, sabe que é sua”. Outro amigo disse que eu uso a música como catarse, pra poder botar pra fora. E de uma certa forma é verdade. Acho que o que nos aproxima e o que a gente representa é esse espírito de criação, independente do que seja atual ou não, do que seja momento, do que seja moderno, do que está acontecendo. Não ter obrigatoriedade de fazer uma música… como pediram a Raul certa vez: “Porra, o grande assunto do momento é a Lady Daiana!”. Raul desligou o telefone e ficou chorando. Pelo amor de Deus! Já imaginou Raul fazendo uma música sobre Lady Daiana? Essa é engraçada.”

MPB

“Você já percebeu que na música brasileira acontece uma coisa sempre assim: época disso é época disso, época daquilo é época daquilo. Tem gente legal aí e esse negócio de evolução, acho que hoje em dia tem muito menos. Eu gosto muito de Lobão, de Cazuza… Mas a música de hoje é muito mais pra chatura do que pra interessante. Não consigo me ver ouvindo muito a música que se faz hoje. Posso até dizer que participei de um período da música brasileira em que as coisas aconteciam mesmo! Era um negócio poderoso e até tem pessoas que dizem que têm inveja de mim e da idade que eu tenho por ter conseguido viver determinada época num estado de ebulição constante… Não sei, tem muita coisa fajutíssima. Não consigo ouvir rádio hoje em dia. Acho rádio muito chato… Programas de música em televisão são raros, raríssimos. Esse Globo de Ouro é um inferno, Isso é bobagem. Acho choradeira demais, é gente chorando em excesso, muita reclamação, mas também, 20 anos de amordaçamento, você vai querer o quê? Não sei, parece até papo de velho, mas acredito que se as pessoas ouvissem a substância, acho que o resultado seria outro.”

Sampaio hoje

“A música que faço hoje talvez seja uma progressão de tudo isso que eu fiz. Acho que hoje, até quando me pego pretendendo escrever um determinado assunto, consigo chegar a um resultado mais satisfatório. Acredito que daqui a 10 anos, já vou achar que o que eu fizer naquele período seja mais exato do que o que estou fazendo hoje. Mas é assim mesmo, a gente tá sempre atrás… Eu, por exemplo, quando termino de fazer um disco, não quero mais ouvir… Acho que aquilo ali é fajuto… Eu, quando termino de fazer uma canção, ainda gosto dela uns três ou quatro dias, mas logo depois já estou em outra, querendo coisas novas.”

Sumido dos palcos

“Sumido dos palcos? Não tanto. Claro que não faço shows como gostaria, mas é a coisa mesmo do disco… Quer dizer, se você não tem disco fica mais difícil. Esse negócio de ostracismo é devido a isso. Só um disco em 82 e já vou pra seis anos sem fazer disco novo. Mas tenho essa oportunidade de fazer shows. Quer dizer, graças a Deus, tenho essa chance, porque as pessoas gostam de mim, das musicas que fiz. Pelo menos até hoje algumas pessoas ainda me mantêm na memória e tenho feito shows em alguns lugares do Brasil com uma correspondência do público bastante boa. Eu posso até dizer que tenho um público bastante bom. Como diz Melodia, “um público que me sustenta”. E esse negócio de emprego, novo emprego, não me vejo fazendo outra coisa, não consigo fazer. Se tivesse que sobreviver fazendo outra coisa, eu talvez fosse uma pessoa muito infeliz, muito triste, talvez até amargurada. Talvez nem sobrevivesse. Eu sou compositor mesmo, não tenho saída. Eu não tenho cura, sou cantor mesmo. Meu negócio é estar no palco cantando canções minhas e de outras pessoas que gosto muito. Tenho essa relação com a música.”

Disco novo

“Não quero mais fazer disco independente, não tenho capacidade de fazer isso e ser o sustentador desse disco no sentido da comercialização. Não tenho o menor talento pra isso. Posso até fazer um disco independente, mas que seja eu fazer o disco e que haja umas pessoas que cuidem dessa outra parte. Dessa maneira talvez eu faça. Mas a minha pretensão mesmo é fazer um disco novo numa fábrica que tenha condição de botar o disco no mercado. De colocar o disco tanto em São Luís quanto em Porto Alegre. E que possa também chegar às rádios, porque nas rádios, hoje em dia, me parece muito claro que o dinheiro tá correndo muito. Se fizer um disco independente, fatalmente não vai tocar em rádio. Se houver uma maneira de colocar no mercado e de forma paralela, aí poderia até dar pé, mas esperar que toque em rádio, principalmente em grandes estações do Rio, é bobagem. Televisão, eu acho que é um pouco pretensão demais. Acho que é sonho demais. Mas pretendo fazer sim!”

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