Impopularizado

Pouco antes de seu precoce falecimento, em 1994, Sérgio Sampaio me mostrou algumas maravilhas que havia composto nos últimos tempos de seu retiro da cena musical, e que pretendia colocar em novo disco – na época, já com estúdio marcado e selo para lançá-lo -, doze anos depois de gravar pela ultima vez; Sérgio Sampaio sonhava com um CD seu, com um registro digital de suas canções, já que todos os seus discos, entre LPs e compactos, haviam sido prensados em vinil.

Sérgio se tornou conhecido apenas pelo seu mega-sucesso Eu quero é botar meu bloco na rua – fenômeno de vendagem para o inicio da década de 70, com mais de 500 mil compactos. Essa emblemática marcha acalentou sonhos de redemocratização do Brasil sob a ditadura e passou à quase condição de hino, tema para aspirações libertárias de quem cantava, e até hoje canta, unindo velhas e novas gerações no mesmo coro, em festa, shows, manifestações, blocos e bailes carnavalescos. Que mais não fossem, as gravações de suas músicas por  Zizi Possi, Erasmo Carlos e Maria Bethânia, já seriam suficientes para avaliar a sua obra, mas, ao contrário, Sérgio Sampaio, em vida, a injusta (para ele), condição de compositor de uma música só, e virou, à sua revelia, um artista “maldito”.

Impopular? Melhor dizer que Sérgio foi impopularizado por não ter como atender as demandas de um mercado que o queria fácil; verdade que fácil – no trato – ele nunca foi, e, também, que foi ficando cada vez mais difícil, principalmente para si próprio. Pessoa de firmes convicções, pode-se dizer um teimoso, mas jamais um omisso, Sampaio enfrentou uma série de dificuldades, a nível pessoal e profissional, sem nunca perder a dignidade; cogita-se que ele poderia ter sido mais flexível, mas… cada qual tem seus limites, e quem pode saber o que passa no interior de cada um? Eu, ainda que na condição de amigo e parceiro, não tenho o direito de julgá-lo; nem eu, nem ninguém.

Reputo Sérgio Sampaio um dos grandes compositores de nossa recente MPB, indubitavelmente um artista único melodista, poeta e intérprete de qualidades raras e grandes tiradas, de originalidade e talento que sobressaem a cada nova audição, cada canção resgatada, cada nova composição gravada. Encantando e surpreendendo, em sua simplicidade harmônica, como um verdadeiro Garrincha da MPB, driblando os percalços, entortando a defesa dos insensíveis e marcando gols de placa com suas canções. Lamentavelmente, com fim inglório, similar ao do grande craque do Botafogo, time de seu coração.

A atemporalidade de Sérgio Sampaio, a meu ver/ouvir, transparece a grandeza do artista que não foi, em vida, do tamanho de seu talento, de sua lucidez. Culpá-lo, às suas instabilidade, irascibilidade e irresponsabilidade – se é que elas existiram na proporção que lhe são imputadas – ou tentar culpar X ou Y, não vai resolver nada. Sampaio sempre foi A ou Z; A, no toque de classe, fino e sutil no discurso e entre o culto e o bem informado de autodidata que lia muito (adorava Kafka e Augusto dos Anjos), e Z, no que tinha de mais chão, sem filtro, cru, direto, sincero e despojado. Sérgio Sampaio foi, no que de melhor se pode ser, um homem do povo com porte de nobre; insurreto, torto, gauche. Ele se irmana a outros raros como Torquato Neto e Caio Fernando Abreu – que o citava como referência – e ocupa, ao lado destes e outros afins, lugar de destaque no cenário de nossas artes contemporâneas.

Fui o único parceiro de Sampaio por ele gravado, e talvez por isso mesmo tenha tomado pra mim a missão de resgatar seu trabalho, criando, por volta de 1996, o projeto “Balaio do Sampaio”. O primeiro resultado desse esforço, não só meu, mas de tantos outros, está registrado no CD homônimo, de 1998, que conta com as participações de notáveis artistas. Portanto, ele não mais é uma “estrela solitária”. Está em um CD – como tanto queria – em companhia desses astros pares, e nos ouvidos e corações de todos nós.

O que nos une é a mesma certeza da importância para a MPB de Sérgio Sampaio, que, contra toda e qualquer imposição estético-mercadológica, resistiu, vestiu a camisa da solidão consciente/criativa do exílio artístico e nos legou um balaio de preciosidades. O que nos conforta, a mim e a todos os que vasculham respeitosamente a obra de Sérgio Sampaio, é constatar que ela se revela sempre surpreendentemente atual, prenhe de desdobramento, rica de tesouros musicais e poéticos ainda a serem descobertos.

O Bloco está agora definitivamente na rua e Sérgio Sampaio, ainda que invisível, estará sempre na passarela – com seus gestos largos, sua risada solta, sua voz única e bela. Ele continua junto da gente, como Diretor de Harmonia do Bloco dos Descontentes.

Recent Posts

Leave a Comment