Luz!

Feliz, fico sabendo pelo João, que teremos várias homenagens ao Sérgio: site, cds, bloco carnavalesco, artistas de novo mergulhados em sua Obra, um público cada vez mais ávido pelo seu trabalho, cineastas debruçados sobre ele, tudo super oportuno, pois sua Obra é viva e dialoga com esse tempo tortuoso. Estive agora em fevereiro em Salvador, para o lançamento do filme Manifesto Makumbacyber e vários blocos cantavam na Festa de Iemanjá “Eu quero é botar meu bloco na rua”, botou Sérgio!

O mensageiro dessa boa nova é seu filho, João Sampaio, que conheci menino ainda e que hoje aos 30 anos, me pede para falar da minha experiência de ter convivido e trabalhado com seu pai.

Creio no orixá Tempo e, por isso mesmo, a força de sua Obra, a contemporaneidade caleidoscópica e rica de suas letras, a beleza rara de sua voz, desmaterializa rótulos, quebra as forças do oponente, desautoriza desmandos e coloca luz solar sobre seu nome!

Sérgio, como todo verdadeiro Artista, não sabia e sabia o tamanho que ele tinha e, por isso mesmo, lutou para ser reconhecido dentro do Brasil, à altura da sua força criativa, ao lado dos seus companheiros de vida e de estrada!

Queria seu trabalho vivo, dialogando com seu tempo! Tentou não perder o fio-da-meada da sua trajetória e a costurou e a bordou, com as cordas do seu violão.

Intenso, debochado, lindo, ácido, apaixonado, menino, mal amanhado, doce, magrelo-louva-deus, galanteador (tinha uma lábia danada com as mulheres!), sonhador, exímio contador de casos, explicitamente afetivo, azedo, frágil, ariano, inteligente, tango, agudo, elegante, um Astro!

O que particularmente me impressiona muito em sua Arte cada vez mais, é a sua excelência como Intérprete! Segundo uma tese minha, “o verdadeiro Intérprete funda um lugar para existir” e ele fundou esse seu lugar de Existência! Seu belíssimo vozeirão de cantor, (a la Nelson Gonçalves), que tanto admirava é a sua assinatura! Arauto do seu sentimento-tridimensionado, corrosivo, apaixonado e unguento!

Conheci Sérgio em 1988, eu com 26 e ele com 41 anos. Eu recém formado em Direção, soube através de uma amiga produtora, que a Funarte do RJ faria uma reunião com os artistas que ocupariam a sala naquele ano e parti pra lá. O alvo principal, dentre outros, era ele. Numa tarde insuportavelmente quente e lá estava ele de sobretudo preto de lã e óculos escuros fazendo a “diva antagonista…”

Nos apresentaram dizendo que eu era um diretor iniciante, mas que já tinha feito alguns trabalhos com a Funarte e gostaria de dirigi-lo. Sem olhar prá mim ele disparou de lá: “Eu não preciso de diretor”, vendo a oportunidade me escorrer das mãos disparei de cá: “Até Michael Jackson precisa de diretor!”, ele me olhou, me apontou aquele seu dedo sempre em riste e disse: “Você vai me dirigir!”

Saímos de lá, fomos direto para minha casa na Siqueira Campos, em Copacabana, conversamos até o dia clarear. Ele me contou que teria Jards Macalé como Participação Especial, mostrou todo o belíssimo repertório, nos tornamos amigos e confidentes inseparáveis!

Xarlô foi amigo de Sérgio Sampaio e é diretor artístico. Foi o responsável pelo famoso show na FUNARTE, em 1988.

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