Na tela com Sampaio: Jorge Furtado

Texto: Aline Dias

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Foi antes de “Meu tio matou um cara”, antes de “Saneamento básico, o filme” e bem antes de colocar a Fernanda Montenegro e o Daniel de Oliveira cantando “Maiúsculo”, em “Doce de mãe”, que o cineasta Jorge Furtado conheceu Sérgio Sampaio.

 “Lembro de ter cantado ‘Eu quero botar meu bloco na rua’, como todo mundo, em 1973 (eu tinha 14 anos), mas depois me perdi do trabalho dele. Quem me apresentou os discos do Sérgio, isso em 1979, foi um amigo, Pena Cabreira, que, como eu, era fã do Raul Seixas e conseguiu os discos, ‘Eu quero botar meu bloco na rua’ (1973) e ‘Tem que acontecer’ (1976). Ouvíamos aqueles discos sem parar, copiamos para fitas k7, para ouvir no carro, decorei todas as letras. Acho que sei todas até hoje. Comprei o ‘Sinceramente’ (1982), mas custei a entender o disco. Hoje gosto muito”, conta.

No ano passado, Furtado lançou o longa-metragem “Real beleza”, com Vladimir Brichta, Adriana Esteves e Francisco Cuoco, além da música homônima como tema do filme. “É uma música linda, apaixonada. Uma declaração de amor. Meu filme tenta refletir sobre o poder da beleza, inspirado na frase de Dostoiévski: ‘A beleza salvará o mundo’. Acho que o Sérgio também acreditava nisso.”

Furtado diz que tem todos os discos, em vinil e CD, e também baixou todas as músicas e vídeos inéditos que encontrou na internet. “Já usei algumas músicas de Sérgio, em diferentes trabalhos, e apresentei seus discos para muitos amigos, que sempre me agradecem. Ele era um grande poeta.”

No especial que originou a série “Doce de mãe”, a ideia de usar “Maiúsculo” em uma cena veio desde o roteiro. “A letra é uma obra-prima. Infelizmente não havia espaço para utilizar o primeiro verso, acho que um dos mais belos da música brasileira. (‘Como é maiúsculo / O artista e a sua canção / Relação entre Deus e o músculo que faz poderosa a sua criação / Pensando bem é um mistério / Como é misterioso o coração’). Fernanda Montenegro e Daniel de Oliveira gravaram em estúdio, com arranjo de Maurício Nader. Gosto muito da cena, tem tudo a ver com o personagem e com a história.”

Produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre para a TV Globo, “Doce de mãe” estreou como um telefilme em 2012 e deu origem a uma série na globo. Em 2013, Fernanda Montenegro ganhou o Emmy Internacional de melhor atriz pelo telefilme, e em 2015 a série foi consagrada como a melhor comédia pelo mesmo prêmio, considerado o Oscar da televisão.

Indagado sobre a escolha de músicas não tão conhecidas de Sérgio Sampaio para “Doce de mãe” e “Real beleza”, Furtado respondeu: “Não conhecidas por quem? Eu conheço todas”. O cineasta já tinha utilizado músicas de Sérgio Sampaio em trabalhos anteriores na Globo. “Num episódio da série ‘Comédias da vida privada’, que escrevi e dirigi (‘Anchietanos’) , uma das trilhas era ‘Eu sou aquele que disse’. Escrevi (com Giba Assis Brasil, direção de Ana Luiza Azevedo) um episódio da série “Brava gente”, e utilizamos ‘Dona Maria de Lourdes’, que era o nome da personagem vivida por Malu Mader”, lembra.

Furtado avisa ainda que pretende continuar usando canções de Sérgio Sampaio em suas obras. “E pretendo continuar ouvindo suas músicas, sempre que possível.”

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