Sérgio Sampaio, Sinceramente

Crianças, vocês acreditam que houve uma época, na música brasileira, em que as gravadoras só estavam interessadas em sucessos comerciais, e os artistas que não se enquadravam eram considerados “malditos”, tinham de juntar os trocados e pedir ajuda aos amigos para gravar um disco independente?

Parece 2011? É, parece. Mas já era assim no século passado. E num dos momentos mais florescentes de nossa música, com a grande geração surgida nos festivais dos anos 60 vendendo muitos discos, explorando novos caminhos musicais, afinando a guitarra elétrica e os teclados com timbres que também soavam brasileiros.

Os anos 70, apesar da ditadura e da censura, foram uma explosão de criatividade sonora. As letras mais políticas eram barradas, e até mesmo artistas populares sofreram a ação da tesoura oficial. Mas as sementes da Tropicália, da Jovem Guarda e da música pop internacional, mescladas com as formas consagradas do samba e da bossa-nova, continuavam germinando. Para os tradicionalistas, apodrecendo e criando fungos. Questão de ponto de vista (ou de ouvido). Afinal, o samba vendia muito na época, também.

Naquela década alguns artistas ficaram conhecidos como malditos. Aplaudidos pela crítica (que nunca lhes negou talento musical), foram desprezados pelas gravadoras por conta de aspectos extra-musicais como temperamento, comportamento ou baixa vendagem. Ou tudo isso junto. Nomes como Tim Maia, Macalé, Luiz Melodia e Sérgio Sampaio são emblemáticos deste período, formavam a linha de ataque do time dos “malditos”.

O menos conhecido é o último. Capixaba de Cachoeiro de Itapemirim (ah, a angústia da influência!), era locutor de rádio no Rio quando foi descoberto por Raul Seixas. O baiano pressentiu o talento do rapaz, e o convidou para fazer parte de um dos discos mais geniais da música freak brasileira: Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez (1971). Todas as composições (menos uma) eram da dupla. Raul acabou sendo o produtor do primeiro compacto de Sérgio, com a canção Coco Verde (que Dóris Monteiro regravou logo depois).

Depois do estrondoso sucesso num festival (o IV FIC, de 1972, com Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua), Sampaio nunca mais emplacou outro. O compacto vendeu 500 mil cópias, e o LP foi puxado pela bela marcha-rancho cuja letra parecia uma colagem pop. O segundo, Tem que Acontecer, de 1976, não aconteceu.

Sérgio Sampaio entra na década de 80 com o balaio cheio de canções, mas sem gravadora, em crise pessoal, artística e econômica. A família de sua segunda mulher, Ângela, banca a gravação de um disco independente, coisa rara na época. Cheio de canções cantáveis, de sabor pop, mas com letras que fugiam a lugar comum. Quem escreveria versos como

Você hoje pra mim/ é a faixa seis/ do lado B/ do meu último elepê.”

Ou

Não há nada mais sozinho/ do que ser inteligente”.

Sérgio morreu em 1994. De lá pra cá, a lenda cresce. Fãs se reúnem, regravam canções, trocam arquivos. É possível se ouvir boa parte de sua obra na internet.

Luiz Melodia, sobrevivente e amigo de primeira hora, regravou a ótima Que Loucura. Um coletivo de admiradores se juntou para o Balaio do Sampaio, em 1996. Em 2005, Zeca Baleiro lança o CD póstumo Cruel, com canções inéditas.

O mesmo Zeca, dono do selo Saravá Discos, acaba de recolocar no mercado o último disco do capixaba, Sinceramente, de 1982. Um belo conjunto de canções, onde a influência de Raulzito (quem influenciou quem?) é notável. Luiz Melodia é homenageado na faixa Doce Melodia, onde divide os vocais. Piau, grande violonista que era o braço esquerdo de Sérgio, passou a ser o braço direito de Melodia, e é até hoje.

Outro parceiro precioso é o poeta Sérgio Natureza, que acabou escrevendo a apresentação do CD. A impressão que fica, ouvindo o disco, é a de que Sérgio Sampaio foi um elo criativo que energizou várias correntes, mas (se) partiu antes da hora. Um verdadeiro maluco beleza, como diria seu maior parceiro. Ouçam!

HOMEM DE TRINTA

Tive o cuidado de ter os pés

Quase sempre no chão

E a cabeça voando

Como se voa na imaginação

Longe do resto do bando

Mas sempre perto do meu coração.

Via: Revista Música Brasileira

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