Série de homenagens procura iluminar a riqueza de Sérgio Sampaio

Sérgio Sampaio havia acabado de comprar uma Brasília (sim, havia um carro com esse nome) e queria mostrá-la à família, que vivia em Cachoeiro de Itapemirim (ES), sua cidade natal. Como não sabia dirigir, o compositor convocou o amigo Renato Piau, que sabia, mas não tinha carteira.

— Falei com ele: “Vamos de noite, quando todos os gatos são pardos” — lembra Piau. — De vez em quando, ele pedia pra guiar um pouco, eu ia passando a marcha e controlando a velocidade, e ele do meu lado, segurando o volante. Chegamos a Cachoeiro e poucos dias depois Raul Seixas (amigo com quem Sampaio gravou, ao lado de Edy Star e Miriam Batucada, o álbum “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10”, em 1971) apareceu lá. Aí a volta foi tranquila, porque Raul tinha carteira e foi dirigindo.

A história — na qual Raul encarna a figura da responsabilidade — ilustra, em tom de anedota, certa loucura folclórica (que se reflete também no abuso de drogas e álcool, que contribuíram para sua morte, aos 47 anos, em 1994) que sempre aparece ligada à percepção que se tem de Sampaio. Assim como seu “temperamento difícil”. Piau fala em “personalidade sampaiana” ao descrever seu comportamento de quem “não levava desaforo pra casa”. Duas ideias que até hoje estão coladas à sua imagem e, em certa medida, explicam sua carreira claudicante (três discos lançados entre 1973 e 1982) após o sucesso arrebatador de “Eu quero é botar meu bloco na rua”, apresentada no Festival Internacional da Canção de 1972:

— Ele era meio brabo. Não abaixava a cabeça para nada, não ouvia calado — conta Piau, guitarrista que tocou em todos os álbuns de Sampaio. — Reagia com o dedo em riste quando criticavam sua música. Quando íamos gravar o disco “Eu quero é botar meu bloco na rua” (de 1973), lembro de dormir no estúdio enquanto ele e o produtor discutiam longamente como seria o arranjo. Queria ter controle do que cantava.

Zeca Baleiro defende o legado

A resistência em fazer concessões — a maior delas, a de se tornar refém do sucesso de “Eu quero… ” — certamente é representativa de Sampaio. Mas quem olha além do rosto magro e dos muitos versos angustiados, da fama de “difícil” ou “maluco” — ele mesmo contava que um amigo ouviu de um executivo de gravadora que queria “tudo o que Sérgio Sampaio, João Gilberto e Tim Maia fizerem, só não os quero por aqui” — encontra um artista e um homem muito mais ricos do que isso. O sujeito que amava futebol de botão a ponto de a vitória ou a derrota no jogo determinarem o grau de felicidade de seu dia. Ou o pai que fritava bolinhos de arroz para servir com feijão e farinha ao filho e que não se isolava dele para escrever suas músicas (“Parecia que gostava do caos que era compor com uma criança de 7, 8 anos do lado”, lembra hoje o então menino João Breitschaft). Ou o autor que cruzava, como descreveu certa vez, “uns roquinhos legais (para mim, coisas do outro mundo, já que fui criado somente entre sambas, boleros e dobrados), uns sambinhas, umas coisinhas loucas, inundadas de despropósitos”. Ou o cancionista de vanguarda, “que inaugurou fusões e experiências que se tornariam comuns algumas décadas depois”, como define Zeca Baleiro, um dos maiores defensores do seu legado, gravando suas canções, editando o álbum póstumo “Cruel” (de 2006) e relançando seus discos pelo selo que comanda, o Saravá Discos.

Neste início de 2014, se anunciam algumas oportunidades de se avançar na compreensão da figura de Sampaio — aprofundando o movimento iniciado nos anos 1990 nas iniciativas de Baleiro, de jovens artistas que mantêm sua memória viva em projetos em Cachoeiro e do amigo/parceiro Sergio Natureza, que organizou em 1998 o tributo “Balaio do Sampaio” (com participação de nomes como João Bosco e Lenine). Importante também é a biografia “Eu quero é botar meu bloco na rua”, que Rodrigo Moreira lançou em 2000.

João Breitschaft encabeça uma das principais homenagens ao pai. Ele comanda o projeto Viva Sampaio, que planeja lançar em abril, quando se completam os 20 anos da morte do artista. A homenagem consiste num site (vivasampaio.com.br, em construção) que terá depoimentos de parceiros, amigos e familiares, análise de sua obra, biografia, manuscritos, fotos, vídeos, entrevistas, cifras.

— Ele era meio desorganizado, e muita coisa ficou com os amigos. A ideia é começar a juntar, para que um dia possamos fazer uma exposição.

Para marcar o lançamento do projeto, João produziu a gravação de “Menino João”, na voz da cantora Inara Novaes (de Cachoeiro). O pai fez para ele a canção, nunca oficialmente lançada.

O olhar do filho ajuda também a entender quem era Sampaio.

— Quando ia pra casa dele (Sampaio se separou da mãe de João quando o menino tinha três anos), era como se me libertasse das regras. Comíamos quando a fome aparecia, dormíamos quando o sono incomodasse, tudo era na base da brincadeira — lembra João. — Nossa convivência foi curta, mas muito intensa. A maior parte das coisas que ele me ensinou foi através da sua obra. Ele sempre se expressou melhor com letras e acordes. Eu chorava quando ouvia “Pobre meu pai” e quando ele dizia “Não ligue que a morte é certa”. Aquilo me ensinou, aos 11 anos, o ciclo natural da vida. Mais tarde, na adolescência, encontrava as respostas em suas músicas.

A nova leva de projetos inclui um documentário, com direção de Chico Regueira e Ines Garçoni, em fase de pesquisa. Um dos colabores centrais é Piau, que guarda um bom acervo de fotos, fitas e histórias.

— Ele não gostava muito de música americana, era engraçado — conta o músico. — O negócio dele era Orlando Silva, Adelino Moreira, Nana Caymmi, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves… Foi ele que me apresentou a música brasileira, com ele que comprei meu primeiro violão, antes só tocava guitarra. Ele dizia: “Não vem com esse negócio de The Who pra cima de mim, não. Tenho um troço melhor aqui, ó, João Nogueira”.

Ines, Regueira e Piau estão entre os fundadores do Bloco Na Rua do Sérgio Sampaio, que estreia no próximo dia 26, com concentração no Mercado São José, em Laranjeiras. A percepção da grandeza de sua obra aparece também em projetos como o recém-lançado CD “Sérgio samba Sampaio”, de Chico Salles, com participação de Zeca Pagodinho, Fagner e Baleiro.

— É um pedaço da obra dele , que tem o humor, o drama… — diz Salles.

O projeto Cabine 103 — de Julia Bosco ao lado de Gustavo Macacko e Juliano Rabujah (ambos conterrâneos de Sampaio) — reafirma as palavras de Salles. O trio apresenta um show que mostra vários aspectos do músico.

— Tem o Sampaio político, o romântico, o cancionista… A ideia é sair dessa alcunha de maldito, de achar que só tem o demônio ali. Porque ele tem canções de amor lindíssimas, outras engraçadas — conta Julia, que descobriu Sampaio através de seu pai, João Bosco. — O que me pegou foi a coragem de expor a dor.

Da dor à graça, do jogo de botão à relação com as gravadoras. Como o próprio escreveu, “embora seja um menino, sou mais um barco vazio”. E vice-versa.

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Showing 2 comments
  • Cynthia Colares
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    Viajei De Trem
    Sérgio Sampaio
    Compositor:Sergio Sampaio
    Letra Original Cifra

    Fugi pela porta do apartamento Nas ruas, estátuas e monumentos O sol clareava num céu de cimento As ruas, marchando, invadiam meu tempo Viajei de trem Viajei de trem Viajei de trem Viajei de trem, eu vi… O ar poluído polui ao lado A cama, a dispensa e o corredor Sentados e sérios em volta da mesa A grande família e o dia que passou Viajei de trem, eu viajei de trem Eu viajei de trem, mas eu queria Eu viajei de trem, eu não queria… Eu vi… Um aeroplano pousou em Marte Mas eu só queria é ficar à parte Sorrindo, distante, de fora, no escuro Minha lucidez nem me trouxe o futuro Viajei de trem Viajei de trem Viajei de trem Viajei de trem, eu vi… Queria estar perto do que não devo E ver meu retrato em alto relevo Exposto, sem rosto, em grandes galerias Cortado em pedaços, servido em fatias Viajei de trem Eu viajei de trem Mas eu queria É viajar de trem Eu vi… Seus olhos grandes sobre mim Seus olhos grandes sobre mim

  • Edu
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    O maior compositor que o brasil ja teve.

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